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Dia Nacional do Surdo?!

Fearsom Aparelhos Auditivos - Ajudar pessosas a encontrar soluções para ouvir melhor



  No próximo dia 26 de setembro, “comemora-se†o Dia Nacional do Surdo, graças a uma lei federal de 2008. Datas como essas, assim como os já conhecidos meses de todas as cores, seriam situações ótimas para levar informação à população, diminuir preconceitos, pressionar governos e instituições a adotar condutas preventivas e de acessibilidade. São chances de favorecer a integração de todos os tipos de deficientes na sociedade. Entretanto, como médico atuando com a reabilitação auditiva há 15 anos, não é isso que vejo nesse dia do Surdo. Muito pelo contrário. A maior parte dos posts e anúncios do dia do surdo que pipocam pelas redes sociais nos “ensinam†que é preciso ter intérprete de LIBRAS em todas as escolas, em todos os lugares, e ponto final! Trata-se de uma enorme campanha de desinformação, que defendendo uma justa causa, “esquece†de 90% do universo da surdez.

  Assim, peço sua atenção para 6 conceitos que podem mudar a maneira como você enxerga o assunto.

Existe um surdo na sua família

  Surdez é a diminuição da capacidade auditiva abaixo de níveis considerados normais. Classificamos a surdez em leve, moderada, severa e profunda. Portanto, ponto de vista médico, qualquer pessoa que precise de volumes mais altos para ouvir é surda e precisa de tratamento. Aproximadamente 2 recém nascidos em cada mil apresentam surdez profunda. Graças à exposição excessiva ao barulho, a perda auditiva vem crescendo entre adolescentes e adultos. Entre os 20 e 40 anos de idade, a surdez acomete 15% das pessoas. Acima dos 70 anos, a prevalência pode chegar a 50%.

A perda auditiva prejudica o cérebro 

  Inúmeros estudos publicados nos últimos anos comprovam os danos ao funcionamento cerebral causados pela perda de audição. Mesmo níveis “pequenos†de surdez, se não tratados, aumentam a chance de se remodelarem as conexões neuronais ou mesmo a diminuição da massa cerebral, com maior risco de demências, como a doença de Alzheimer. A notícia boa é que a reabilitação da audição através de aparelhos auditivos ou implantes cocleares, minimiza ou até mesmo elimina esses riscos.

Faça check-up da audição

  Na pesquisa da perda auditiva, há exames adequados para todas as idades. A pesquisa das otoemissões acústicas (teste da orelhinha) é obrigatória por lei em todos os recém nascidos. Infelizmente muitos bebês acabam não fazendo. Nas crianças maiores, um número crescente de pediatras e escolas solicitam um exame auditivo de rotina. Mas ainda falta todos os médicos clínicos ou pediatras incluírem a solicitação um check-up da audição em sua rotina. A audiometria é exame simples, rápido e sem riscos e é realizado em inúmeras clínicas de otorrinolaringologias e fonoaudiologia, na maiorias das cidades do país.

A audição é o único sentido humano que pode ser recuperado bionicamente

  Nas últimas duas décadas uma das maiores invenções tecnológicas da medicina se espalhou por boa parte do planeta: O Implante Coclear. Também conhecido como ouvido biônico, a tecnologia do implante coclear (IC) substitui a cóclea humana. Ele permite que pessoas – antes condenadas ao silêncio – possam ouvir, falar e interagirem com o mundo sonoro em todas as suas facetas. Crianças hoje que nascem com surdez severa/profunda podem receber um IC nos primeiros anos de vida e assim desenvolverem a fala normalmente. Tudo lado a lado com as crianças ouvintes, sem necessidade de escolas especiais ou qualquer tipo de intérprete.

Estamos a caminho da superaudição pela tecnologia

  Imagine a cena: Um casal sentado frente a frente num restaurante barulhento. Ela é surda e usa implante coclear, ele ouve normalmente e não usa nada. Ele tem microfone sem fio preso na lapela, que transmite sua voz diretamente para os implantes dela. Ela ouve tranquilamente o que ele diz, pois seus implantes também são dotados de uma tecnologia que analisa os sons ambientais e filtra o excesso de ruído do restaurante.  Enquanto isso, ele que ouve “normalmente†não consegue entender quase nada do que ela fala no meio de tanto barulho.

  Essa e outras situações vão permitindo que os deficientes auditivos que usam aparelhos auditivos e implantes cocleares tenham – em algumas situações específicas – uma experiência auditiva melhor do que as pessoas que não usam nada. Grandes empresas de tecnologia já se deram conta disso e começam a desenvolver fones de ouvido com tecnologias semelhantes. Em breve, todos poderemos ter algo pendurado ou preso nas orelhas e que nos fará ouvir melhor. 

LIBRAS é pra quem não pode (ou não quer) reabilitar sua audição

  A língua brasileira de sinais (LIBRAS) é a segunda língua oficial do Brasil desde 2002. Trata-se de uma grande conquista para os surdos que dependem dela para se comunicar. Em escolas e faculdades, é obrigatória a presença de um intérprete nas salas de aula com surdos sinalizados. Infelizmente, como tantas outras leis brasileiras, essa também nem sempre é cumprida. Os surdos sinalizados também fazem parte de um universo maior, dotado de uma cultura própria, fonte de orgulho e autoafirmação pra muitos deles. No mundo, os usuários das diferentes línguas de sinais, cujo maior berço foi a França, reúne milhares de pessoas. Entretanto, é preciso dizer que mesmo nos países mais avançados e com maior grau de acessibilidade para surdos, aqueles que dependem das línguas de sinais para se comunicar enfrentam muitas dificuldades. Nas nossas repartições públicas, nos meios de transporte, em empresas privadas e no comércio, é a língua portuguesa, falada e escrita, a principal ferramenta de comunicação.

  Nós, médicos fonoaudiólogos, professores não podemos negligenciar o irrefreável avanço da reabilitação auditiva. Hoje em dia são raros os casos de surdez em que a pessoa, com ajuda de aparelhos auditivos ou implantes auditivos, não possa ser reabilitada para uso da linguagem oral. Diante das tecnologias que permitem uma criança nascida surda passar a ouvir, também vem se tornando raro que os pais optem por educar seus filhos com LIBRAS, pela “causa†da cultura Surda e em detrimento da sua adaptação integral à sociedade.

  Falta explicar melhor a população do que se trata esse Dia Nacional do Surdo. Se é pra dar suporte aos surdos que usam LIBRAS, que se faça o dia nacional da LIBRAS, ou da Cultura Surda ou mesmo o Dia do Surdo Sinalizado. Mas se o objetivo for melhorar a vida de todos os que sofrem com a surdez e alertar a sociedade sobre como se proteger e se tratar, melhor seria um Dia Nacional de Prevenção e Combate a Surdez.



Fonte : Texto retirado do site Portal Otorrino, escrito por Dr. Luciano Moreira. / Imagem retirada do material de divulgação da Oticon